A tal retração autógena

19 de dezembro de 2013


Há ainda muita confusão quanto aos tipos de retração e como elas ocorrem no concreto. De maneira resumida, podemos citar dois: a por secagem e a autógena. O primeiro tipo é o mais conhecido pois, como o próprio nome sugere, a retração está ligada à perda de água do concreto, ou seja, aquela água que teoricamente não reage com o cimento por estar em excesso.

A pergunta óbvia é: quanto de água o cimento precisa para reagir e hidratar completamente? A resposta nos remete ao conhecimento de como a água está presente no concreto. Pode ser de três maneiras:
  1. Água ligada quimicamente: é aquela que faz parte das moléculas dos produtos de hidratação e que está fortemente ligada a eles; ela é aproximadamente 28% da massa de cimento, isto é a/c=0,28;
  2. Água adsorvida: é muito importante, pois fica "molhando" os produtos da hidratação. Você pode imaginar a mesma situação quando molha a mão e fica com aquela água, "adsorvida" sobre ela. Esta água é cerca de 12% da massa de cimento, ou seja, a/c=0,12;
  3. Água capilar: é aquela que fica nos poros da pasta de cimento ou do concreto após toda a hidratação se processar. Para que o cimento hidrate completamente é necessário uma relação a/c mínima de 0,4 (não é um número absoluto, mas pode variar dependendo do cimento). Quando ela é maior que isso, formará a água capilar.

Portanto, quando um concreto é preparado, por exemplo, com relação a/c=0,55, hidrata-se completamente; a água restante, cerca de 15% da massa de cimento, sairá durante a secagem do concreto, provocando sua retração, que é chamada de retração por secagem ou, como antes era denominada, retração hidráulica.

Então, será que se eu fizer um concreto com relação a/c=0,4 ele não irá retrair? Errado! Vai retrair e muito, provavelmente mais do que um concreto convencional, com relação a/c=0,6. Mas por que? Por conta da tal da retração autógena, este componente da retração que vem atormentando todos os tecnologistas e executores de piso.

Ela está ligada a fenômenos complexos, como forças capilares, mudanças de água capilar para adsorvida, pressões de separação entre outros, que seriam impossíveis de se apresentar neste texto tão curto e que fugiria dos propósitos deste boletim.

Mas é possível compreendê-la se você imaginar uma mistura de água com cimento, formando uma pasta, que é completamente selada de modo a não permitir a evaporação da água. Este sistema é formado por partículas sólidas – o cimento – e poros cheios de água, formando pequenas bolsas.

À medida que o cimento vai hidratando, a água vai sendo consumida e surgem forças capilares nestes poros, que antes estavam completamente cheios de água e que agora vai se ligando aos produtos formados. A regra básica da força capilar é o diâmetro do poro. Quanto menor, mais intensa é a força.

Assim, quanto menor for a relação água/cimento, menores serão os poros formados e maiores as tensões capilares e, portanto, maior a retração, mesmo que não haja perda de água para o ambiente. Por isso é chamada de retração autógena.

Simplificadamente é isso que ocorre, mas como evitá-la? Bem, os fatores que mais interferem na sua intensidade são:
  1. Baixas relações a/c, inferiores a 0,45; não é recomendável o emprego de adições, do tipo sílica ativa, em concretos para pisos devido à possibilidade do aumento da retração autógena;
  2. Cimentos com adições, como a escória de alto forno; nestes, a retração autógena pode ser intensa até com relações a/c da ordem de 0,5 ou talvez até maiores e dependerá muito da composição do clinquer;
  3. Finura do cimento; neste quesito, não há muito que fazer, pois os cimentos nacionais são muito finos;
  4. Composição química do cimento, principalmente C3A (aluminato tri-cálcico) e teor de álcalis.

Há ainda outros fatores que dependem do tipo do concreto, mas não há indícios, nos poucos dados encontrados na literatura, de que aditivos do tipo redutor de água, incluindo os superplastificantes, aumentem a retração autógena.

Pode-se reduzir a retração autógena, mas não evitá-la. Um caminho que está sendo perseguido pelos pesquisadores é o emprego de uma fonte interna de cura, que vá liberando água gradativamente para a hidratação do cimento. Consegue-se este resultado com uso de agregados porosos ou polímeros super absorventes, mas isto é uma outra história, para outro boletim. Lembre-se: não adianta reduzir a relação a/c, ela só piora este tipo de retração. Procure sempre manter uma quantidade de água baixa no concreto, por exemplo, inferior a 190 L/m³.


Públio Penna Firme Rodrigues

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